Dois meses após se licenciar do mandato, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) virou alvo de uma investigação que apura se o parlamentar tem atuado nos Estados Unidos para pressionar autoridades brasileiras. O pedido de abertura foi feito pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e acolhido pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que será o relator do inquérito.
A PGR sustenta que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tem defendido sanções por parte do governo Donald Trump contra Moraes, em meio à ação penal que apura uma tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022 — da qual Jair Bolsonaro é réu.
Segundo o procurador-geral Paulo Gonet, as falas públicas e postagens de Eduardo revelam intenção de intimidar o Judiciário e “embaraçar o julgamento técnico”. Moraes afirmou, ao autorizar o inquérito, que há “indícios razoáveis de autoria” e possível prática dos crimes de coação no curso do processo, obstrução de investigação e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
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A decisão inclui a coleta de depoimentos do ex-presidente Jair Bolsonaro, que admitiu publicamente custear a estadia do filho nos EUA, e de diplomatas brasileiros com conhecimento dos episódios.
Sanções nos EUA e o “fator Musk”
O governo americano pode usar como base a Lei Magnitsky, que permite punições a estrangeiros acusados de corrupção ou graves violações de direitos humanos. Isso incluiria medidas como bloqueio de bens, cancelamento de visto e proibição de entrada no país.
Ministros do STF veem a pressão externa como potencialmente associada ao bilionário Elon Musk, que travou embates públicos com Moraes em 2024, após o ministro determinar a suspensão do X (ex-Twitter) por descumprimento de ordens judiciais.
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Eduardo Bolsonaro segue nos Estados Unidos e afirmou que não pretende retornar enquanto Moraes não for sancionado. Para ele, a abertura do inquérito reforça sua narrativa de perseguição. “O Judiciário confirma que o Brasil vive um Estado de exceção”, disse.
Ele também afirmou que a medida pressiona ainda mais o governo Trump a aplicar as sanções: “Com isso, empurram o Trump para um ponto de não-retorno”, declarou.
Já o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que o procurador Paulo Gonet pode “entrar na lista de sancionados”, ecoando o discurso do irmão. Enquanto isso, o clima institucional entre Judiciário e Legislativo segue em tensão máxima — com o Executivo tentando manter distância.
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Governo prega cautela…
Apesar da gravidade do episódio, o governo federal optou por não se manifestar publicamente até o momento. A avaliação do Itamaraty é que uma resposta dura poderia alimentar ainda mais a retórica de perseguição e transformar Eduardo em símbolo de enfrentamento internacional contra o Supremo.
Internamente, o Palácio do Planalto reconhece que uma eventual sanção a Moraes — como sugerida pelo senador americano Marco Rubio — traria impactos sérios à relação bilateral com os EUA. Mas a estratégia, por ora, é privilegiar os canais diplomáticos para conter a escalada.
…mas o PT pede cassação de Eduardo Bolsonaro
Mesmo com o Itamaraty cauteloso, a crise gerou reação imediata no Congresso. O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), acionou o Conselho de Ética da Casa e pediu a cassação do mandato de Eduardo Bolsonaro. Ele argumenta que o deputado age contra a soberania nacional ao buscar apoio estrangeiro contra autoridades do país.
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“É o momento de defender o nosso país de uma agressão, e essa agressão está sendo estimulada por um deputado que ainda tem mandato”, afirmou Lindbergh.